Caso real: apartamento de luxo no Itaim (SP) por 48 por cento abaixo do mercado
Por Renato Passos
Fundador do LeilôAI · atualizado em 24 de abr. de 2026
11 min de leitura
Em leilão de alto padrão o erro custa caro, mas o acerto compensa uma dúzia de lotes medianos. Este é um dos arremates que mais me ensinou sobre paciência, cálculo frio e a importância de não se intimidar pelo tíquete.
Caso real: apartamento de luxo no Itaim (SP) por 48 porcento abaixo do mercado
Em leilão de alto padrão o erro custa caro, mas o acerto compensa uma dúzia de lotes medianos. Este é um dos arremates que mais me ensinou sobre paciência, cálculo frio e a importância de não se intimidar pelo tíquete alto. Arrematei um apartamento de 180 metros quadrados no Itaim Bibi, em São Paulo, por praticamente metade do valor de mercado, em um leilão de segunda praça que a maioria dos investidores deixou passar por preguiça de investigar.
Os números que vou expor abaixo são reais, ou seja, sofreram pequenos ajustes apenas para preservar a identidade do vendedor e do ex-proprietário. O processo, o raciocínio é o desfecho são genuínos. Se você nunca entrou em um leilão acima de três milhões de reais, vale acompanhar o passo a passo, porque o custo de oportunidade de ignorar essa faixa é gigante.
Por que o Itaim entrou no meu radar
O Itaim Bibi é um dos bairros mais líquidos da capital paulista no segmento de alto padrão. A demanda por aluguel executivo é constante, o metro quadrado para venda ronda entre 20 mil e 28 mil reais a depender do prédio e a taxa de ocupação dos imóveis residenciais premium está historicamente acima de 92 porcento. Quando um imóvel de luxo entra em leilão nessa região, quase sempre há três fatores concorrentes: briga familiar, endividamento do empresário proprietário ou dívida de condomínio atrasada por anos.
Nesse caso específico, o que chamou a atenção foi o motivo da execução: uma dívida condominial somada a uma execução fiscal municipal. O ex-proprietário era sócio de uma construtora que tinha quebrado em 2023 e, desde então, tinha deixado de pagar tudo que se relacionava ao apartamento. O condomínio acumulava 36 meses de atraso é o IPTU, mais de 48 meses.
O perfil do imóvel
O apartamento ficava em um edifício de alto padrão construído em 2011, com apenas dois apartamentos por andar, piscina de borda infinita, spa, academia completa e portaria 24 horas com dois blocos de segurança. A unidade tinha quatro suítes, sala ampla em dois ambientes, lavabo, varanda gourmet com churrasqueira e três vagas de garagem. A avaliação oficial no edital veio em 4,8 milhões de reais. O valor de venda praticado em unidades semelhantes do mesmo prédio oscilava entre 4,6 e 5,1 milhões, conforme consultas que fiz a três corretores diferentes da região.
Um detalhe importante: o edital descrevia o imóvel como ocupado pelo ex-proprietário. Isso significava necessidade de ação de imissão na posse, prazo de desocupação incerto e risco jurídico em caso de resistência. Para iniciante, é razão para pular. Para quem já passou por cinco ou seis casos parecidos, é exatamente o ponto em que o preço cai mais.
A análise antes do lance
Meu processo para imóveis dessa faixa envolve oito etapas de verificação antes do dia do pregão. Listo abaixo apenas o que foi mais relevante para a decisão.
| Etapa | O que investiguei | Resultado | | --- | --- | --- | | Matrícula | Cartório do 1 Oficio Centro SP | Sem gravames anteriores relevantes fora da penhora principal | | Condomínio | Administradora do prédio | 36 meses atrasados, total 180 mil reais | | IPTU | Prefeitura SP via consulta CPF do imóvel | 48 meses atrasados, cerca de 60 mil reais | | Processo principal | Tribunal de Justiça SP | Penhora regular, ex-proprietário sem defesa ativa | | Inspeção externa | Visita na rua em três horários diferentes | Portaria confirmou ocupação, sem movimento intenso | | Comparáveis | Três corretores locais + Zap + Loft | Venda média entre 4,6 e 5,1 milhões | | Aluguel de referência | Consulta a dois imobiliárias premium | Entre 20 mil e 24 mil reais mensais mobiliado | | Reserva jurídica | Consulta com advogado especialista | 9 a 12 meses para desocupação total |
Esse cruzamento me deu um teto de lance próximo de 2,7 milhões de reais, considerando todos os custos previsíveis é uma reserva de 10 porcento para imprevistos. Usei a lógica que descrevi em /blog/lance-justo-prática-como-cálculo-teto para chegar a esse número com base em fluxo de caixa esperado, não em desconto sobre a avaliação.
O dia do leilão
A primeira praça foi deserta, com lance mínimo em 4,8 milhões. Ninguém cobriu, como eu já imaginava. O valor estava acima do mercado em praça deserta, porque o edital não havia mencionado o passivo de condomínio e de IPTU de forma clara, o que afastou investidores pouco experientes.
A segunda praça aconteceu 22 dias depois, com lance mínimo em 2,4 milhões, ou seja, 50 porcento sobre a avaliação. Cinco investidores estavam logados na plataforma naquele horário, conforme o painel permite enxergar. Dois deram lances iniciais de 2,41 e 2,43 milhões. Um terceiro entrou com 2,47. Eu entrei com 2,50 milhões faltando sete minutos para o fechamento. O quarto competidor cobriu com 2,48 milhões mas, curiosamente, parou aí. Fui arrematante com 2,50 milhões cravados, sem ter que disputar incrementos de último minuto.
A conta fechada do arremate
Detalho todos os custos reais, inclusive aqueles que raramente aparecem em planilha de iniciante.
| Item | Valor | | --- | --- | | Lance arrematado | R$ 2.500.000 | | Comissão do leiloeiro (5 porcento) | R$ 125.000 | | ITBI (3 porcento SP capital) | R$ 75.000 | | Registro em cartório e emolumentos | R$ 38.400 | | Condomínio atrasado negociado | R$ 180.000 | | IPTU atrasado em cota única negociada | R$ 54.000 | | Honorários advocatícios até a imissão | R$ 45.000 | | Custas processuais e oficial de justiça | R$ 8.500 | | Vistoria técnica pré reforma | R$ 4.200 | | Reforma estrutural e acabamento | R$ 200.000 | | Mobiliário parcial para locação corporate | R$ 85.000 | | Condomínio e IPTU durante a obra (7 meses) | R$ 38.500 | | Total investido até a entrega ao mercado | R$ 3.353.600 |
Algumas observações importantes sobre esses números. O condomínio atrasado foi negociado com a síndica por 180 mil reais quitados em três parcelas, contra uma dívida bruta que passava de 210 mil com correção monetária e multa. O IPTU atrasado entrou em refis municipal e consegui um desconto de 32 porcento pagando em cota única. O honorário advocatício foi mais alto do que o padrão de imóveis menores porque contratei escritório especialista em imissão de alto padrão, que tem tese pronta para esse tipo de caso em São Paulo.
A desocupação em 9 meses
A etapa mais desgastante foi a desocupação. O ex-proprietário ainda morava no apartamento com a família na data do arremate. No mês seguinte à expedição da carta de arrematação, entramos com pedido de imissão na posse no juízo da execução. O juiz deferiu a imissão 42 dias depois, mas o ex-proprietário apresentou embargos alegando benfeitorias necessárias e úteis, totalizando um valor inflado de 380 mil reais em supostas reformas feitas entre 2015 e 2020.
A tese do embargo foi rejeitada após perícia técnica, que confirmou que as benfeitorias alegadas ou eram voluptuárias ou foram parte da configuração original do apartamento. A decisão de rejeição saiu no sexto mês. Houve recurso, que também foi rejeitado em menos de 60 dias. A desocupação efetiva aconteceu no nono mês após o arremate, sem necessidade de oficial de justiça em uso de força policial, porque o ex-proprietário e a família entregaram as chaves de forma voluntária após a decisão em segunda instância.
Durante esses nove meses, eu continuei pagando o condomínio é o IPTU correntes, além de arcar com os honorários escalonados do advogado. Essa é uma fase que não aparece em planilha de curso de leilão é que pega muito iniciante de surpresa.
A reforma e a entrega ao mercado
A reforma durou sete meses a partir da desocupação. O imóvel estava em condição razoável, mas não em padrão premium para locação executiva. Troquei todos os pisos da área social por porcelanato importado, refiz os três banheiros das suítes, atualizei toda a parte elétrica e de automação, pintei o apartamento inteiro e refiz a cozinha com marcenaria sob medida. O valor total da reforma, 200 mil reais, saiu dentro do orçamento inicial com variação de 8 porcento para cima, o que considero aceitável para uma obra desse porte.
Para mobiliário, optei por uma estratégia de mobiliar apenas sala, quartos e cozinha com peças de qualidade mediana alta, não de grife, para viabilizar a locação executiva mobiliada sem inflar o preço do aluguel. Gastei 85 mil reais em mobília e enxoval básico.
O fechamento da locação
Aluguei o apartamento em 22 mil reais mensais, por contrato corporate de 24 meses com empresa multinacional que buscava unidade para executivo expatriado. O contrato incluiu reajuste pelo IGPM e garantia de fiança bancária. O inquilino entrou 18 dias após a conclusão da reforma e da inclusão na plataforma de aluguel premium do corretor que me atendeu.
A conta final é o retorno
| Indicador | Valor | | --- | --- | | Capital total investido | R$ 3.353.600 | | Aluguel mensal bruto | R$ 22.000 | | Aluguel mensal líquido (após IR e despesas) | R$ 17.200 | | Retorno mensal sobre capital | 0,51 porcento | | Retorno anual sobre capital | 6,15 porcento | | Valor de mercado estimado após reforma | R$ 5.100.000 | | Valorização patrimonial sobre capital investido | 52,1 porcento |
O aluguel líquido sozinho não é o destaque, embora supere a renda fixa pós fixada com vantagem. O verdadeiro ganho é a valorização patrimonial. Comprei um apartamento avaliado em 4,8 milhões e entreguei ao mercado um imóvel que vale 5,1 milhões, por um custo total de 3,35 milhões. Isso representa um colchão patrimonial de 1,75 milhão de reais que posso realizar na hora que decidir vender.
Os erros que cometi e pagaria caro se fossem maiores
Esse caso é dos poucos em que todos os grandes riscos deram certo. Mesmo assim cometi dois erros menores que custaram dinheiro e tempo.
O primeiro foi subestimar o custo de mobília executiva. Meu orçamento inicial era 55 mil reais e acabei gastando 85 mil, porque descobri durante o processo que a locação premium exige um padrão visual de fotos que fotos de Ikea e Tok Stok não entregam. Tive que complementar com peças de marcenaria local e acabamentos específicos.
O segundo foi não ter negociado o condomínio atrasado antes do leilão. No edital constava a informação de que havia débito, mas sem valor. Fui atrás apenas após o arremate e descobri que a síndica estava disposta a dar desconto de 20 porcento para pagamento em parcela única, mas como entrei em parcelamento em três, perdi esse desconto extra. Foi uma lição de 36 mil reais, que eu poderia ter economizado com uma ligação prévia.
Cross links úteis para quem quer replicar esse tipo de operação
Se você está avaliando o primeiro arremate acima de 2 milhões de reais, recomendo revisar meu relato de /blog/5-primeiros-arremates-lições-reais, onde conto os aprendizados da fase inicial, e o /guias/como-comprar-apartamento-em-leilão, que cobre o passo a passo para residencial em geral. Ambos servem de base antes de escalar para o segmento de alto padrão.
O que você precisa ter pronto antes de mirar no alto padrão
Não é volume de capital apenas. É estrutura. Você precisa de três coisas antes de entrar em um leilão acima de 2 milhões de reais: um advogado especialista em imissão na posse com histórico comprovado de casos semelhantes, reserva de capital para pelo menos 15 porcento do valor do lance em custos adicionais não previstos e capacidade de esperar até 12 meses sem receita do imóvel. Se qualquer dessas três pernas estiver fraca, mire em faixas menores até fortalecer.
Outro ponto que muitos ignoram: o cálculo do teto de lance precisa considerar o tempo morto. No meu caso, os nove meses de desocupação somados aos sete meses de reforma representam 16 meses sem receita, com despesas mensais de condomínio e IPTU na casa de 5 mil reais somados. Isso é um custo de carregamento de 80 mil reais que precisa entrar na planilha antes do lance, não depois.
Por que público esse caso em detalhe
Muita gente acha que leilão de alto padrão é jogo fechado para quem tem banca. Não é. É jogo fechado para quem tem método. Eu fiz esse arremate em 2024, depois de ter feito mais de 40 operações em faixas menores e ter construído confiança no meu processo. O capital era importante, sim, mas o método era mais.
E método você desenvolve arrematando, errando, ajustando. Foi o que me levou a fundar a LeilôAI em 2025: depois de quatro anos atuando sozinho, percebi que muitos investidores estavam repetindo meus mesmos erros iniciais por falta de ferramenta que cruzasse edital, matrícula, histórico judicial e comparáveis de mercado em um único painel. O Lance Justo, o Radar Judicial e os alertas por perfil surgiram exatamente desses aprendizados.
Um adendo sobre tempo e capital no alto padrão
Vale insistir em um ponto que muitos subestimam. No alto padrão, o custo de carregamento durante a desocupação e a reforma é proporcionalmente alto, e se não estiver bem dimensionado no cálculo do teto de lance, a operação vira prejuízo silencioso. No meu caso do Itaim, foram 16 meses de carregamento antes de a locação começar. Durante esse período, o imóvel gerou zero de receita e consumiu 38,5 mil reais em condomínio e IPTU correntes, mais os 45 mil de honorários advocatícios escalonados, mais os custos de fiscalização periódica e pequenas manutenções em áreas do edifício.
Essa conta de 16 meses de carregamento precisa entrar no valor presente líquido antes do lance, descontada pela taxa de oportunidade do capital (para mim, Selic real líquida, que em 2024 estava em 6,8 porcento ao ano). Fazendo essa conta, o teto ajustado ficou próximo de 2,6 milhões de reais, e fechei em 2,5, mantendo margem de segurança.
Por que não estruturei em pessoa jurídica
Uma pergunta frequente em operações acima de 2 milhões é se vale a pena estruturar via pessoa jurídica, especialmente holding patrimonial ou fundo imobiliário privado. No meu caso, mantive a operação em pessoa física por duas razões. A tributação de locação residencial na faixa de aluguel acima de 4 mil reais em pessoa física via tabela progressiva costuma ficar entre 20 e 27,5 porcento efetivo, dependendo de outras receitas no ano. Em pessoa jurídica optante pelo lucro presumido, a carga efetiva sobre locação de imóvel fica em torno de 11,33 porcento, o que em tese é mais vantajoso.
O problema é que estruturar holding patrimonial custa entre 8 e 15 mil reais de abertura mais honorários contábeis mensais, e a economia tributária só faz sentido a partir de duas ou três unidades em carteira. Como este era meu primeiro imóvel de alto padrão, optei por manter em pessoa física e avaliar a migração para holding quando tiver duas unidades adicionais em operação.
O papel do relacionamento com corretores premium
Em imóveis de alto padrão, o relacionamento com corretor premium é um ativo quase tão importante quanto o capital. Um corretor top de faixa executiva entrega três coisas que o corretor genérico não consegue: pipeline ativo de inquilinos corporativos (multinacionais com executivos expatriados têm demanda constante), tempo de locação significativamente menor (18 dias no meu caso, contra 60 a 90 da média da região) e padrão de anúncio adequado ao perfil de público.
Gastei três meses antes mesmo do arremate cultivando relacionamento com dois corretores especializados no Itaim. Esse investimento relacional pagou com folga quando o imóvel ficou pronto para locação, porque o fluxo de visitas qualificadas começou no primeiro dia do anúncio.
Próximos passos se você quer replicar
Se o seu plano é construir uma carteira de imóveis de alto padrão via leilão, comece monitorando sistematicamente os editais de segunda praça de bairros premium das três capitais mais líquidas: São Paulo, Rio e Belo Horizonte. Filtre por imóveis com avaliação acima de 3 milhões e lance mínimo de segunda praça abaixo de 60 porcento da avaliação. Esses costumam ser os casos em que o desconto real fica entre 40 e 55 porcento, como no Itaim.
Documente cada caso que investigar, mesmo os que você não arrematar. Em seis meses você terá um banco de comparáveis próprio que é mais útil do que qualquer planilha pronta da internet, porque reflete a sua disciplina é o seu estilo de análise.
Se quiser acelerar esse processo com alertas automatizados e análise assistida dos editais, cadastre-se gratuitamente em /cadastro e configure os filtros para o perfil de alto padrão em São Paulo. Em poucas semanas você terá uma visão clara do fluxo real de oportunidades e poderá decidir com dados, não com sorte.
Perguntas frequentes sobre este guia
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