Procuração em leilão: quando funciona, quando é armadilha
A procuração é o instrumento que permite a uma pessoa agir em nome de outra. Em leilão, a procuração aparece em situações diversas. O arrematante que viaja e não pode estar presente ao pregão.
Procuração em leilão: quando funciona, quando é armadilha
A procuração é o instrumento que permite a uma pessoa agir em nome de outra. Em leilão, a procuração aparece em situações diversas. O arrematante que viaja e não pode estar presente ao pregão. O operador que arremata para terceiros em volume profissional. O grupo de investidores que delega a um operador a execução dos lances. E também, infelizmente, o fraudador que emite procuração em branco para tomar posse irregular de bens arrematados. Este guia detalha quando a procuração é útil em leilões, quando se torna armadilha, os tipos disponíveis, o que deve constar, os riscos mais frequentes e os casos de anulação mais comuns na jurisprudência brasileira.
O que é uma procuração
A procuração é o instrumento pelo qual o outorgante nomeia outra pessoa como seu procurador para prática de um ou mais atos jurídicos em seu nome. Está disciplinada nos artigos 653 a 666 do Código Civil brasileiro, e tem como efeito transferir ao procurador o poder de agir, vinculando o outorgante aos atos praticados nos limites dos poderes concedidos.
Em leilões, a procuração tem três funções principais. Permitir que um terceiro execute lances em nome do arrematante. Permitir que um representante assine o auto de arrematação. Permitir que um procurador conduza a documentação subsequente, como obtenção da carta de arrematação, recolhimento do ITBI e registro no cartório de imóveis.
Procuração pública versus procuração particular
A primeira distinção fundamental é entre procuração pública e procuração particular. A diferença tem consequências práticas importantes.
| Tipo de procuração | Onde é feita | Custo típico | Validade | |---|---|---|---| | Procuração pública | Tabelionato de notas | R$ 80 a R$ 300 | Maior presunção de veracidade | | Procuração particular | Emitida pelo próprio outorgante | Gratuita | Menor força probatória | | Procuração com firma reconhecida | Tabelionato com autenticação | R$ 20 a R$ 50 por firma | Intermediária | | Procuração digital | Tabelionato eletrônico | R$ 50 a R$ 200 | Força equivalente à pública |
Em leilões judiciais, especialmente para prática de atos processuais, o juízo costuma exigir procuração pública ou particular com firma reconhecida. Em leilões extrajudiciais, a exigência varia conforme o leiloeiro e o credor fiduciário.
A procuração pública oferece maior segurança ao outorgante e a terceiros. O tabelionato verifica a identidade do outorgante, conferindo o documento oficial, confirmando a capacidade civil e, em alguns casos, a ciência sobre os poderes concedidos. Essa verificação reduz o risco de fraude e de contestação posterior.
Poderes genéricos versus poderes específicos
Outra diferenciação fundamental é entre procuração com poderes genéricos e procuração com poderes específicos. O artigo 661 do Código Civil estabelece que o mandato em termos gerais só confere poderes de administração. Para prática de atos de disposição, como venda ou arrematação, são necessários poderes especiais.
| Tipo de poder | Alcance | Exemplos | |---|---|---| | Poderes genéricos | Atos de administração comum | Pagar contas, receber correspondência | | Poderes especiais | Atos de disposição patrimonial | Vender imóvel, arrematar em leilão | | Poderes específicos | Ato determinado em concreto | Arrematar o lote 42 do leilão X |
Em leilões, a recomendação técnica é sempre usar procuração com poderes específicos. Isso limita o poder do procurador ao ato determinado, reduzindo riscos de uso abusivo ou fraude. A procuração que diz "para arrematar bens em leilões e praticar todos os atos conexos" é genérica e pode gerar problemas, inclusive impugnação pelo juízo.
Quem pode outorgar e receber procuração
Nem toda pessoa pode outorgar ou receber procuração. Há requisitos legais de capacidade civil e de aptidão para exercer o mandato.
Quem pode outorgar
Pessoa física maior de dezoito anos, em pleno gozo de suas faculdades mentais, pode outorgar procuração. Menores podem outorgar em situações limitadas, sempre assistidos ou representados. Pessoas jurídicas outorgam por meio de seus representantes legais, identificados no contrato social ou no estatuto.
Quem pode receber
O procurador deve ser pessoa capaz. Em regra, qualquer maior de dezoito anos pode ser procurador. Existem restrições para algumas atividades, como advocacia, que exige OAB. Em leilão, não há obrigatoriedade de procurador ser advogado, salvo se o ato exigir capacidade postulatória, como a defesa em impugnação judicial.
Incompatibilidades
O artigo 890 do CPC lista impedimentos para arrematação, incluindo o juiz, o tabelião, o escrivão, o leiloeiro, o arrematante remisso, entre outros. A procuração não pode servir para burlar esses impedimentos. Se um impedido outorgar procuração para terceiro arrematar em seu nome, o arremate pode ser anulado.
Poderes que devem constar em procuração para leilão
A boa prática é incluir na procuração poderes específicos para cada ato necessário ao longo do processo de arrematação.
| Poder | Descrição | |---|---| | Para representar em leilões | Participar de pregões | | Para dar lances | Oferecer valores até limite especificado | | Para arrematar bens | Consumar a arrematação | | Para assinar auto | Lavrar e assinar o auto de arrematação | | Para efetuar pagamento | Pagar lance, comissão e demais valores | | Para receber documentos | Obter carta de arrematação | | Para recolher impostos | Pagar ITBI e taxas | | Para promover registro | Representar no cartório de imóveis | | Para tomar posse | Imitir-se na posse em caso de imóvel desocupado | | Para tomar medidas judiciais | Ajuizar imissão se necessário | | Para substabelecer | Transferir poderes quando autorizado |
A específicação detalhada reduz dúvida no momento do ato. Se o juízo, o leiloeiro ou o cartório de imóveis questionarem o poder do procurador para certo ato, a presença do poder específico dissolve a dúvida.
Quando a procuração é útil em leilão
A procuração tem utilidade prática em vários cenários.
Arrematação à distância
Quando o arrematante não pode estar fisicamente presente ao leilão, seja por distância geográfica ou por compromisso inadiável, a procuração permite que um representante execute os lances.
Operação profissional em volume
Operadores profissionais que arrematam em nome de investidores utilizam procurações específicas para cada operação. Essa estrutura é comum em grupos de investimento em imóveis em leilão.
Arrematação em outras comarcas
Em leilões em comarcas distantes, a procuração outorgada a advogado local ou a operador especializado permite que o arrematante participe sem deslocamento.
Arremate por pessoa jurídica via representante
Empresas que arrematam bens para uso próprio ou para revenda operam via procuradores, normalmente dirigentes ou funcionários designados.
Casal com regime de bens
Em casamentos com regime de comunhão universal ou parcial, a procuração entre os cônjuges permite que um arremate em nome do outro, com eficácia sobre ambos os patrimônios.
Quando a procuração se torna armadilha
A mesma flexibilidade que torna a procuração útil também pode transformá-la em armadilha. Existem cenários em que a procuração gera riscos substanciais.
Procuração em branco
A procuração em branco é aquela outorgada sem específicação dos poderes ou do objeto. Em leilão, é usada por fraudadores que preenchem posteriormente os dados de bens que ainda não existiam ou de operações nunca autorizadas.
O outorgante que assina procuração em branco perde controle sobre o uso do instrumento. Pode descobrir, meses depois, que seu nome está em auto de arrematação de imóvel que nunca pretendeu comprar. A legislação brasileira presume válida a procuração em branco, mas permite impugnação quando comprovada a fraude, em ação própria.
Procuração sem prazo definido
Procuração sem prazo é outro ponto de risco. O outorgante pode esquecer que outorgou, o procurador pode continuar usando mesmo após mudança de circunstâncias, e a revogação depende de ato formal e comunicação expressa.
Procuração com poderes amplos demais
Procurações com formulações como "praticar todos os atos necessários à administração dos bens" ou "participar de quaisquer leilões" são amplas demais e abrem espaço para abuso. O procurador pode arrematar bens em nome do outorgante além da capacidade financeira deste, gerando obrigações graves.
Procuração após divergência
Quando a relação entre outorgante e procurador se deteriora, sem a revogação formal o procurador pode continuar agindo em nome do outorgante. Essa situação é comum em rompimentos familiares, disputas comerciais ou divergências em grupos de investimento.
Procuração inautêntica
Em casos extremos, fraudadores produzem procurações falsas, com assinaturas forjadas, selos falsificados ou papel de tabelionato não oficial. Uma procuração inautêntica pode ser usada por algum tempo até ser detectada, e durante esse período o arrematante é vitimado ou coparticipante em ilícito.
Modelo comentado de procuração para leilão
Um modelo de procuração específica para leilão, com os campos mais relevantes, pode ser redigido conforme esta estrutura.
| Campo | Conteúdo típico | |---|---| | Cabeçalho | Denominação do instrumento | | Identificação do outorgante | Nome, CPF, RG, estado civil, profissão, endereço | | Identificação do procurador | Nome, CPF, RG, endereço | | Poderes específicos | Listagem detalhada, com limite de valor | | Objeto específico | Leilão determinado, com data e processo | | Limite de valor | Teto do lance que pode ser ofertado | | Vedações | Substabelecimento não autorizado | | Prazo de validade | Data final de eficácia | | Local e data | Assinatura | | Reconhecimento de firma | Quando particular | | Selos cartoriais | Quando pública |
A inclusão de limite de valor é uma proteção essencial. Sem esse limite, o procurador pode arrematar por valor superior ao pretendido pelo outorgante, gerando obrigações financeiras que o outorgante pode não conseguir honrar.
O papel do advogado na procuração de leilão
Embora não seja obrigatório que o procurador seja advogado, a presença do advogado na operação de leilão traz diversas vantagens.
| Atividade | Vantagem do advogado | |---|---| | Análise prévia de matrícula e edital | Conhecimento jurídico estruturado | | Redação da procuração | Poderes adequados, sem ambiguidade | | Participação no pregão | Conhecimento das regras processuais | | Defesa em caso de impugnação | Capacidade postulatória | | Acompanhamento do auto e carta | Rotina com o tribunal | | Registro no cartório | Conhecimento do procedimento | | Imissão na posse | Conhecimento processual e local |
Para leilões de maior valor ou de complexidade jurídica, a contratação de advogado especialista em leilão é recomendação quase obrigatória. Honorários para acompanhamento completo de arrematação variam entre dois e cinco por cento do valor arrematado, dependendo da região e da complexidade.
Limite de responsabilidade do outorgante
Um ponto que gera dúvida frequente é o limite de responsabilidade do outorgante pelos atos do procurador. O artigo 662 do Código Civil estabelece que os atos praticados por pessoa sem mandato, ou excedendo seus poderes, são ineficazes em relação àquele em cujo nome foram praticados, salvo se este os ratificar.
Na prática, isso significa o seguinte. Se o procurador arremata além dos poderes concedidos, o outorgante pode recusar a ratificação e não ficar obrigado. Mas se o outorgante permite que a operação prossiga, recebe benefícios dela ou tarda na contestação, configura-se ratificação tácita e ele passa a responder pelos atos.
Além disso, há responsabilidade do procurador perante terceiros. Se o procurador age de forma abusiva, o terceiro lesado pode demandá-lo pessoalmente. E há responsabilidade do outorgante quando escolhe mal o procurador ou não o fiscaliza adequadamente (culpa in eligendo e culpa in vigilando).
Casos de anulação de arremate por procuração
A jurisprudência brasileira conhece diversos casos de anulação de arremate em razão de problemas com procurações.
Caso 1: Procuração falsificada
Em decisão de 2023, o TJSP anulou arremate de imóvel em que se constatou que a procuração pública apresentada era falsa. O juiz do tabelionato de origem confirmou que não existia registro do instrumento. A arrematação foi desfeita, o valor pago devolvido ao arrematante legítimo e o fraudador respondeu por falsidade ideológica.
Caso 2: Procuração revogada não comunicada
Em caso julgado pelo TJMG, o outorgante havia revogado a procuração uma semana antes do leilão, mas não comunicou o tabelionato nem o procurador. O procurador arrematou e gerou litígio. O tribunal decidiu pela responsabilidade do outorgante, por negligência na comunicação formal, mas anulou o arremate pela falta de poder efetivo no momento do ato.
Caso 3: Procuração em branco
Em caso célebre de 2022, o STJ confirmou anulação de arremate em que a procuração em branco fora usada para outorgar poderes amplos que o outorgante não concedera. A corte reforçou que a procuração em branco presume apenas os poderes efetivamente concedidos, podendo ser impugnada em juízo quando demonstrada a extrapolação.
Caso 4: Procurador impedido
Em caso do TJSP, o procurador era funcionário do cartório judicial responsável pelo leilão, hipótese de impedimento do artigo 890 do CPC. O arremate foi anulado apesar da boa-fé do outorgante, que desconhecia a incompatibilidade do procurador.
Caso 5: Poderes insuficientes
Em diversos casos, cartórios de imóveis e varas judiciais rejeitaram atos praticados por procuradores com poderes insuficientes. A solução foi a obtenção de nova procuração, muitas vezes com atraso que prejudicou prazos processuais.
Cuidados práticos com a procuração
Para evitar os riscos descritos, siga estas recomendações.
| Recomendação | Motivo | |---|---| | Usar procuração pública sempre que possível | Maior segurança jurídica | | Especificar o objeto e os poderes | Limitar alcance do mandato | | Fixar limite de valor | Proteger o outorgante financeiramente | | Definir prazo de validade | Evitar procuração perene | | Vedar substabelecimento | Impedir cadeia de procuradores | | Registrar a procuração | Dar publicidade ao ato | | Conferir a identidade do procurador | Reduzir risco de fraude | | Revogar por escritura pública | Formalizar a extinção | | Notificar terceiros da revogação | Evitar responsabilidade residual | | Manter cópia do instrumento | Prova documental da operação |
Substabelecimento
O substabelecimento é o ato pelo qual o procurador transfere, total ou parcialmente, os poderes recebidos a outra pessoa. Pode ser feito com ou sem reserva de poderes.
| Tipo de substabelecimento | Efeito | |---|---| | Com reserva | Procurador original mantém os poderes | | Sem reserva | Procurador original perde os poderes | | Autorizado na procuração | Permitido sem nova autorização | | Não autorizado | Exige nova outorga ou comunicação |
Em leilões, o substabelecimento sem autorização pode gerar problemas. O juízo pode rejeitar o substabelecido como procurador, exigindo ratificação direta do outorgante. Por isso, a cláusula sobre substabelecimento deve ser cuidadosamente redigida. Quando o outorgante não quer ampliar a cadeia de procuradores, a recomendação é inserir vedação expressa ao substabelecimento.
Procuração digital e tabelionatos eletrônicos
O Brasil avançou nos últimos anos na implantação de tabelionatos eletrônicos que emitem procurações digitais com certificação e validade equivalentes à procuração tradicional em papel. A procuração digital traz vantagens operacionais.
| Vantagem | Detalhamento | |---|---| | Agilidade | Emitida em horas, às vezes minutos | | Custo | Geralmente inferior à procuração tradicional | | Validade jurídica | Equivalente à procuração pública | | Acesso remoto | Outorgante não precisa deslocar-se | | Arquivamento digital | Fácil consulta e verificação |
Plataformas como o e-Notariado permitem a emissão e validação de procurações digitais, com autenticação biométrica e certificação digital. Para leilão, a procuração digital é uma solução especialmente útil quando o leilão é iminente e o deslocamento até o tabelionato tradicional seria inviável.
Leituras complementares
Para complementar o entendimento sobre o processo jurídico de leilão, consulte nossa análise de imissão na posse em TJSP, TJRJ e TJMG e nosso guia passo a passo de como comprar imóvel em leilão.
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Encerramento
A procuração é uma faca de dois gumes. Usada com técnica, com poderes específicos, com prazo e com limite de valor, é ferramenta poderosa de atuação profissional em leilões. Usada com negligência, com poderes genéricos, com prazo indefinido e sem acompanhamento, é porta aberta para fraudes, abusos e anulações. O arrematante que aprende a distinguir os dois cenários, que exige procuração pública e específica, que trabalha com advogado especializado e que revoga instrumentos desnecessários opera em condição de segurança jurídica substancial. Em leilão, a disciplina com a procuração é parte inseparável da disciplina com o lance.

Sobre o autor
Renato Passos
Fundador do LeilôAI
Fundador do LeilôAI, investidor em leilões desde 2021. Já arrematou imóveis residenciais, veículos e imóveis rurais em 6 estados. Estudou engenharia de produção antes de migrar para o mercado imobiliário alternativo. Escreve sobre estratégia de arremate, análise jurídica de editais e oportunidades de mercado.
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