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Estratégia de arremate em série: como construí minha carteira de 8 imóveis em 3 anos

Em 2021 eu tinha R$ 50 mil em reserva e nenhum imóvel de investimento. Em 2024 eu tinha 8 imóveis em carteira, dois deles adquiridos com financiamento Caixa via leilão e os outros seis comprados com capital próprio.

Renato Passos
Renato PassosFundador do LeilôAI · 24 de abril de 2026 · 9 min de leitura
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Foto por Tahlia Doyle via Unsplash

Estratégia de arremate em série: como construí minha carteira de 8 imóveis em 3 anos

Em 2021 eu tinha R$ 50 mil em reserva e nenhum imóvel de investimento. Em 2024 eu tinha 8 imóveis em carteira, dois deles adquiridos com financiamento Caixa via leilão e os outros seis comprados com capital próprio reciclado de arremates anteriores. Não foi sorte. Foi um sistema construído arremate a arremate, com muitos ajustes no caminho.

Vou contar esse processo com os números reais, o raciocínio por trás de cada decisão e os erros que moldaram a estratégia atual.

A premissa que guia tudo

Antes de entrar nos detalhes, quero estabelecer a premissa central: leilão não é jogo de azar e também não é uma fórmula mágica. É um mercado com assimetria de informação. Quem analisa melhor e age mais rápido captura essa assimetria. Quem entra sem análise paga o preço da própria ignorância, geralmente literalmente.

A construção de uma carteira via leilão exige ciclos de capital: você compra, reforma se necessário, vende ou aluga, recicla o lucro e repete com escala maior. Cada ciclo bem executado aumenta a capacidade do próximo.

Fase 1: os primeiros R$ 50 mil e a lógica da concentração geográfica

Por que comecei em uma única cidade

Minha primeira decisão estratégica foi deliberadamente limitante: escolhi uma única cidade para começar. No meu caso, Goiânia, onde eu morava e trabalhava na época. A razão é simples e muita gente ignora: análise imobiliária depende de conhecimento local. Você precisa saber quais bairros estão em valorização, quais têm perfil de locatário forte, onde o metro quadrado está subprecificado e onde a percepção de valor está inflada.

Esse conhecimento não se constrói lendo relatórios. Ele se constrói indo a imóveis, conversando com corretores locais, acompanhando o mercado de aluguel de perto. Em uma cidade que você não conhece, você está sempre em desvantagem em relação a quem mora lá.

Os primeiros dois arremates foram em Goiânia. Somente após dominar o processo na cidade conhecida é que comecei a expandir.

Como R$ 50 mil viraram o primeiro ciclo completo

Capital inicial: R$ 50.000

Primeiro arremate: apartamento em Goiânia por R$ 103.500 (ver Meus 5 primeiros arremates para detalhes completos). Eu tinha R$ 50.000 e precisei de R$ 53.500 extras. Usei R$ 30.000 de reserva pessoal e negociei um prazo de 60 dias para o pagamento do restante com meu irmão, que me emprestou o valor sem juros.

Oito meses depois, vendi por R$ 158.000 com lucro líquido de R$ 19.800. Devolvi o empréstimo do irmão e fiquei com R$ 73.000 em caixa. Em vez de comemorar e gastar, mantive 100% reinvestido.

Esse primeiro ciclo me ensinou que a velocidade de venda importa tanto quanto a margem.

Fase 2: construindo o processo de análise semanal

As 2 horas semanais de análise

Desde o segundo arremate, adotei um ritual semanal que nunca abandonei: toda segunda-feira, das 19h às 21h, analiso os leilões agendados para as próximas 3 a 4 semanas.

O processo segue uma ordem específica:

Primeira hora: filtrar o volume. Em uma semana típica, aparecem entre 80 e 150 imóveis em leilão nos estados que acompanho. A maioria é eliminada em 3 a 5 minutos por critérios básicos: tipo de imóvel fora da estratégia atual, cidade sem liquidez conhecida, ou desconto aparente insuficiente (menos de 25% abaixo do valor de mercado bruto).

Segunda hora: análise profunda nos 5 a 10 que passaram pelo filtro inicial. Aqui entro no edital, verifico pendências, consulto comparáveis de mercado, cálculo o Lance Justo e decido se vou a campo ou não.

Esse processo de 2 horas semanais me apresentou, em 3 anos, mais de 200 oportunidades analisadas e resultou em 8 arremates finalizados. A taxa de seleção de 4% não é conservadorismo excessivo. É critério.

Fase 3: alavancagem com Caixa Econômica Federal

Quando e como usei financiamento de leilão

No terceiro ano, com R$ 180.000 em caixa, comecei a olhar para imóveis de maior valor. Um apartamento de 3 quartos em Goiânia que eu queria arrematar tinha lance mínimo de R$ 220.000 e meu teto calculado era R$ 245.000.

Em vez de usar todo o capital próprio e travar minha liquidez, explorei o financiamento Caixa para imóveis de leilão. A Caixa oferece condições de financiamento para bens que ela mesma leiloa, e os juros foram de 8,99% ao ano no período.

O cálculo que fiz: se o retorno projetado do imóvel era de 22% no período de 14 meses, e o custo do financiamento era de 8,99% ao ano (equivalente a cerca de 10,5% em 14 meses), ainda havia margem positiva. Mais importante: ao usar financiamento para esse imóvel, mantive R$ 120.000 disponíveis para outros arremates.

Os critérios para usar alavancagem

Não uso financiamento para qualquer arremate. Os critérios que aplico:

  • O retorno projetado precisa superar o custo do financiamento em ao menos 8 pontos percentuais
  • O imóvel precisa ser desocupado ou com prazo de desocupação altamente previsível
  • O prazo total do ciclo (arremate, eventualmente reforma, venda) não pode exceder 18 meses para imóveis financiados

Esses critérios eliminam o uso de alavancagem em imóveis rurais, em imóveis ocupados com processo judicial incerto e em mercados de baixa liquidez.

Fase 4: expansão regional e diversificação por classe

Quando me senti pronto para expandir geograficamente

Depois do quarto arremate em Goiânia, com um processo consolidado, uma rede de corretores locais e um fluxo de análise funcionando, comecei a expandir para outras cidades.

O critério que usei para escolher a segunda cidade foi simples: precisava ser um lugar onde eu tivesse algum relacionamento preexistente. Escolhi Brasília porque um amigo corretor me apresentou ao mercado do Setor Comercial Sul e me deu os comparáveis que precisava para analisar com segurança.

A lição aqui: expansão geográfica funciona quando você tem alguém na ponta que conhece o mercado local e que tem interesse em trabalhar com você. Corretor, advogado local, gestor de aluguel, seja lá quem for. Nunca entre em um mercado completamente estranho sem essa âncora.

Diversificação por classe de ativo

Ao longo dos 3 anos, a carteira evoluiu assim:

  • 2021: 2 imóveis residenciais (apartamentos em Goiânia)
  • 2022: 3 imóveis residenciais + 1 sala comercial (Brasília)
  • 2023: 4 imóveis residenciais + 1 sala comercial + 1 fazenda (saída da fazenda no mesmo ano, conforme já contei)
  • 2024: 4 imóveis residenciais + 2 salas comerciais + 1 galpão logístico de pequeno porte

A diversificação por classe não foi uma estratégia deliberada desde o início. Foi uma consequência do aprendizado: conforme fui entendendo cada tipo de ativo, naturalmente comecei a operar em mais classes.

O galpão logístico foi meu primeiro imóvel industrial. Aprendi que o ciclo de locação é diferente, o perfil do locatário é completamente diferente e a análise de valor é mais complexa. Mas a metodologia de análise de Lance Justo se adapta bem a qualquer classe, desde que você ajuste os comparáveis para o tipo correto de ativo.

Os indicadores que uso em cada análise

Lance Justo

O Lance Justo é o teto absoluto que cálculo antes de qualquer leilão. É o valor máximo que estou disposto a pagar considerando: valor de mercado real do imóvel (não a avaliação do edital), todos os custos de aquisição, custo estimado de reforma se necessário, minha margem mínima de 20% sobre o custo total e um desconto adicional se o imóvel estiver ocupado.

Explico o processo completo no post sobre cálculo do Lance Justo. O ponto central é que nunca dei um lance acima do meu Lance Justo calculado. Nunca. Isso salvou minha carteira em pelo menos três ocasiões em que me envolvi emocionalmente com um imóvel e senti vontade de ir além.

Radar Judicial

Antes de qualquer arremate judicial ou extrajudicial, verifico o histórico processual do imóvel e dos seus antigos proprietários. Ações de terceiros, débitos trabalhistas vinculados ao imóvel, disputas condominiais e pendências fiscais podem acompanhar o bem mesmo após a transferência em alguns casos específicos.

Esse checklist judicial me salvou de pelo menos dois arremates que pareciam ótimos nos números mas tinham processos ativos que poderiam complicar a transmissão da propriedade limpa.

Nota de Oportunidade

A Nota de Oportunidade é o indicador que uso para priorizar em qual arremate focar quando tenho múltiplas opções em análise simultânea. Ela cruza margem projetada, liquidez estimada do mercado local, prazo estimado de ciclo e grau de complexidade operacional.

Uma sala comercial com 18% de margem e ciclo de 6 meses pode ter nota maior do que um apartamento com 22% de margem e ciclo de 14 meses, dependendo da minha posição de caixa naquele momento.

Planejamento tributário: holding versus CPF

O momento em que a holding se tornou relevante

Nos dois primeiros anos, operei tudo em CPF. A tributação do ganho de capital em pessoa física é progressiva: 15% até R$ 5 milhões de lucro, 17,5% de R$ 5 a 10 milhões, e assim por diante. Para operações esporádicas, o CPF é simples e suficiente.

A partir do quinto imóvel, comecei a fazer as contas da holding com um contador especializado em tributação imobiliária. A conclusão foi: para quem opera em volume, a tributação via pessoa jurídica no regime de lucro presumido pode ser significativamente mais eficiente do que o CPF, especialmente quando há receita de aluguel no mix.

Não vou entrar nos detalhes específicos aqui porque tributação é altamente dependente do perfil individual, do volume de operações e de como a holding é estruturada. O conselho é: a partir do terceiro imóvel, consulte um contador com experiência em investidores de leilão. Os ganhos potenciais na eficiência tributária compensam largamente o custo dessa consulta.

O que a holding não resolve

A holding não é bala de prata. Ela traz custo contábil fixo, obrigações fiscais periódicas e, dependendo do volume de operações, uma complexidade administrativa que precisa ser gerida. Para quem faz 1 ou 2 arremates por ano, o CPF bem gerido pode ser a opção mais simples e eficiente.

A reutilização de liquidez: o motor do crescimento

Como cada ciclo financia o próximo

O princípio de reutilização de liquidez é o que diferencia a construção de carteira do investimento pontual. Em vez de retirar o lucro de cada arremate, eu reinvisto 70 a 80% do capital recuperado no ciclo seguinte.

Exemplo prático do meu terceiro ano:

  • Vendi o apartamento do Ipiranga por R$ 345.000
  • Custo total havia sido R$ 270.260
  • Lucro líquido: R$ 52.000 após imposto
  • Capital recuperado total: R$ 322.000 (investimento original + lucro)
  • Reinvesti R$ 260.000 no ciclo seguinte (dois arremates simultâneos menores)
  • Retirei R$ 62.000 como remuneração pessoal do ano

Esse ciclo de reinvestimento composto é o que explica como R$ 50.000 iniciais viraram uma carteira de 8 imóveis em 3 anos. Não foi genialidade. Foi disciplina de alocar o capital recuperado antes de gastar.

Os erros que me custaram mais no processo de série

Tentar escalar antes de dominar o processo

No segundo ano, tentei arrematar três imóveis em 45 dias. Não tinha capacidade operacional para gerir três reformas, três processos de regularização e três tratativas de venda simultaneamente. Dois dos três ficaram mais tempo parados do que o necessário porque minha atenção estava dividida.

Aprendi: escale o volume de arremates de forma proporcional à sua capacidade de gestão, não à sua capacidade de capital.

Misturar análise com emoção

Houve um apartamento em Brasília que eu queria muito. Era próximo de onde eu morava na época, tinha um padrão de acabamento que eu gostei e estava em um bairro que eu conhecia bem. Meu Lance Justo calculado era R$ 185.000. O leilão subiu para R$ 201.000 e eu fui além do meu teto.

Paguei R$ 203.500. A margem que havia calculado desapareceu. Ainda obtive lucro, mas muito menor do que o planejado. Nunca mais dei um lance acima do Lance Justo calculado antes do leilão, independentemente de quanto eu queira o imóvel.

A situação atual da carteira e os próximos passos

Hoje, em 2024, a carteira tem:

  • 4 apartamentos residenciais (2 alugados, 1 em venda, 1 recém-arremateado e em reforma)
  • 2 salas comerciais (ambas alugadas)
  • 1 galpão logístico (alugado)
  • 1 apartamento residencial em outra cidade em processo de regularização final

A renda passiva de aluguel hoje cobre boa parte dos meus custos fixos, e os ciclos de compra e venda continuam gerando capital para novos arremates.

O próximo passo na estratégia é aumentar a proporção de imóveis mantidos para renda versus imóveis girados para ganho de capital. A lógica: o mercado de leilões é cíclico, com períodos de maior e menor oportunidade. Ter uma base de renda fixa de locação permite que eu seja mais seletivo nos arremates e não precise fechar negócio apenas para manter o fluxo de caixa.

O que você precisa para começar com método

Se você quer construir uma carteira via leilões de forma sistemática, os pilares são:

1. Capital inicial gerenciado com disciplina. Não precisa ser muito. Precisa ser suficiente para um primeiro arremate com margem real, e você precisa de reserva para os custos que o lance não cobre.

2. Um processo de análise repetível. As 2 horas semanais de análise que descrevi acima. Consistência supera intensidade.

3. Foco geográfico inicial. Uma cidade que você conhece, um mercado que você entende.

4. Indicadores de decisão claros. Lance Justo calculado antes do leilão, verificação judicial como pré-requisito, nota de oportunidade para priorização.

5. Disciplina de reinvestimento. O que separa quem tem 1 imóvel de quem tem 8 não é a sorte de encontrar boas oportunidades. É reinvestir o capital recuperado em vez de consumi-lo.

Para começar com as ferramentas que uso no meu processo, acesse o LeilôAI. O Lance Justo e o Radar Judicial estão disponíveis para qualquer arremate que você esteja analisando.

Renato Passos

Sobre o autor

Renato Passos

Fundador do LeilôAI

Fundador do LeilôAI, investidor em leilões desde 2021. Já arrematou imóveis residenciais, veículos e imóveis rurais em 6 estados. Estudou engenharia de produção antes de migrar para o mercado imobiliário alternativo. Escreve sobre estratégia de arremate, análise jurídica de editais e oportunidades de mercado.

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